Arte Crônica

RUBEM ALVES 

 

 Brasil da dor

Brasil_chorando

Não existe momento mais oportuno para falar do Brasil. Rever algumas interpretações deste país sui generis. É impressionante como tantas velhas reflexões permanecem atuais. O país do século  passado ainda é perfeitamente válido para muitos aspectos da nossa realidade, principalmente a política.

As reações impatrióticas e as paixões pessoais momentâneas de nossos homens públicos prevalecem à legislação. As iniciativas públicas não são construtivas, continuam no sentido de desatinar o brasileiro da mais íntegra conduta. Os decretos pessoais vêm antes das necessidades comuns e não se refreiam as pretensões particulares. Parece sempre a nós, comuns do povo, que os governos nasceram  para satisfazer as necessidades e as paixões particulares. Só raras vezes a coisa pública representa a força ativa do dever e seu cumprimento.

Ao pensador atual impende que a gênese da falta de integridade entre aqueles que se investiram, ou ainda, que nós investimos de poderes de representação esbarra na mentalidade cultural desta nação. Como construir um projeto coletivo de um povo, se inexiste uma tentativa de conjunção das chamadas forças vivas em torno de pontos mínimos de interesse comunitário? De que adiantaram tantos acordos coletivos se o atingimento do verdadeiro objetivo se esgarça cada vez mais?

A perguntar-se sobre a razão dessa dificuldade, Sérgio Buarque de Holanda, um dos nossos maiores pensadores, sugere: “Em terra onde todos são barões não é possível acordo coletivo durável, a não ser por uma força exterior respeitável e temida”. Ainda a se clarificar que ele se refere, em sua contribuição intelectual “Raízes do Brasil”, a um Brasil colonial e depois monárquico, essa reflexão não cabe no Brasil contemporâneo, ou talvez não devesse caber. Mas alguns “barões” atuais teimam em manter os seus privilégios, mesmo em detrimento das instituições e da segurança nacional.

Ora, o Brasil de hoje vive um novo momento de crise. Aliás, o país virou terra de ninguém, onde todos se sentem com direito de fazer e desfazer. Aí está o noticiário a nos mostrar cotidianamente o contexto à beira do caos, do abismo social e político. Pode-se afirmar com segurança que alguns segmentos não se deixarão levar pela tentação de recorrer a uma nova espécie de ditadura, como forma de o País voltar à paz social?

Esta é uma reflexão muito séria, que deveria estar sendo feita neste momento pela sociedade brasileira, e o legado de Sérgio Buarque de Holanda uma fonte de consulta permanente.

 meu gravatar

Sylvia R. Pellegrino é escritora, associada da REBRA e inscrita na UBE – União Brasileira de Escritores.